30 de maio, de 2026 | 07:20

Classificação de terrorismo do PCC e CV pelos Estados Unidos deverá atingir a economia brasileira

Miguel dos Santos *

A decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas altera profundamente a dinâmica de cooperação com o Brasil na área de segurança pública. Além disso, o impacto na economia deverá ser inevitável. Fica a sensação de que a preocupação nunca foi o combate ao narcotráfico e à violência, mas sim objetivos bem velados. Há riscos severos de isolamento financeiro, aumento de burocracia e insegurança jurídica. Vale lembrar que essa é a segunda vez que o governo de Donald Trump tenta dar um pinote com uma rasteira na economia brasileira. E, mais uma vez, políticos daqui estimulam essas ações, de forma vergonhosa e antipatriótica.

Com a medida anunciada para entrar em vigor no dia 5 de junho, empresas brasileiras poderão enfrentar bloqueio de ativos internacionais, dificuldades na captação de crédito e rigor redobrado nas cadeias globais de suprimentos e logística. A legislação estadunidense prevê punições rigorosas para instituições que facilitem “apoio material” a terroristas. Bancos brasileiros que têm filiais nos EUA ou fazem compensações em dólar podem enfrentar sanções ou até cortes caso processem recursos dessas facções, ainda que não tenham ciência disso. Fundos de investimento estrangeiros têm restrições regulatórias severas contra alocações em países ligados a listas de terrorismo. O aumento do risco regulatório pode gerar fuga de investimentos e desvalorização na Bolsa de Valores. Empresas e fintechs terão de elevar drasticamente seus controles de compliance (prevenção à lavagem de dinheiro) para evitar o bloqueio de contas e multas bilionárias aplicadas por órgãos como o Office of Foreign Assets Control (OFAC).

No âmbito da segurança, os efeitos são imprevisíveis. Investigadores, como o promotor Lincoln Gakiya, alertam que a troca ágil de informações com órgãos como o FBI e a DEA tende a ser comprometida, já que o tema poderá migrar para a esfera da CIA, agência historicamente marcada pela atuação sigilosa, reclusa e vinculada a interesses estratégicos do governo estadunidense.

Especialistas e autoridades brasileiras avaliam que a medida pode provocar interrupção nos canais de diálogo já consolidados entre forças policiais dos dois países. Diferentemente do FBI, a CIA não possui tradição de cooperação rotineira e transparente com polícias locais e Ministérios Públicos. Na prática, há receio de quebra no fluxo direto de inteligência entre a Polícia Federal, promotores brasileiros e agências estadunidenses, o que pode prejudicar investigações e operações conjuntas contra organizações criminosas transnacionais.

“Há riscos severos de isolamento financeiro,
aumento de burocracia e insegurança jurídica”


Também cresce a preocupação com possíveis impactos sobre a soberania nacional. Ao tratar facções criminosas brasileiras sob a ótica do “terrorismo”, os Estados Unidos ampliam o risco de justificar ações extraterritoriais ou mecanismos de intervenção indireta em território brasileiro, subordinando questões internas de segurança pública aos interesses estratégicos de Washington.

Embora a classificação não encerre automaticamente o intercâmbio de dados entre a Polícia Federal e órgãos como a DEA, integrantes do governo brasileiro enxergam a medida com desconfiança. A avaliação predominante é que rotular facções como grupos terroristas pode enfraquecer, e não fortalecer, o combate ao crime organizado, ao criar novos entraves burocráticos, ampliar o nível de sigilo das informações compartilhadas e deslocar o eixo da cooperação para estruturas militares e de inteligência dos Estados Unidos.

A decisão assinada pelo secretário de Estado, Marco Rubio, tem como objetivo ampliar sanções financeiras internacionais e dificultar operações de lavagem de dinheiro. Ainda assim, a medida não altera a legislação penal brasileira nem substitui a soberania jurídica do país. Apesar disso, o gesto é interpretado por setores do governo e da área de segurança como mais um movimento de pressão política e diplomática de Washington sobre temas internos brasileiros. Não bastasse a recente imposição de tarifas de exportação sobre empresas brasileiras, que causou danos econômicos consideráveis no começo de 2026.

“A troca ágil de informações com órgãos como o FBI
e a DEA tende a ser comprometida, pois a CIA não
fala com ninguém”


Nos últimos anos, a relação entre as forças de segurança brasileiras e estadunidenses já vinha passando por revisões institucionais motivadas por questões de reciprocidade diplomática e soberania. Um exemplo recente foi a retirada de credenciais de agentes de imigração dos Estados Unidos que atuavam dentro da sede da Polícia Federal, em Brasília.

Enquanto o Palácio do Planalto e especialistas em segurança pública criticam a classificação por temerem ingerência estrangeira, setores ligados à oposição comemoram a medida. No Congresso Nacional, o projeto de lei conhecido como “Antifacção” está em tramitação com foco no endurecimento do combate às organizações criminosas transnacionais dentro dos parâmetros da legislação brasileira, evitando enquadrar facções nacionais como grupos terroristas de natureza ideológica.

* Economista. Formado pela Universidade Federal de Viçosa, servidor aposentado do Estado de Minas Gerais.

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