03 de junho, de 2026 | 08:00
Desigualdade compromete desenvolvimento humano no Brasil
Antonio Nahas Junior *
O Governo brasileiro divulgou e comemorou os dados publicados pelo Radar IBGE sobre a evolução do Índice de Desenvolvimento Humano para municípios (IDHM). E não é para menos: o Brasil ficou pela primeira vez no grupo de países com Desenvolvimento Humano muito alto. Entre 2012 e 2024, o IDHM do Brasil cresceu de 0,744 para 0,805. Ficando acima de 0,80, fomos para o andar de cima.Isto reflete sobretudo a execução coordenada de políticas públicas, que elevaram a expectativa de vida ao nascer, ampliaram o acesso à educação e expandiram a renda per capita.
O Brasil melhorou. E melhorou muito. Vive-se mais, estuda-se mais e parte importante da população passou a acessar oportunidades antes restritas a pequenas elites. Pelos dados do IBGE, o melhor componente brasileiro é longevidade, seguido de educação e renda. O índice avalia também o IDHM por estado, sexo, raça e gênero. As mulheres brancas têm a maior longevidade. E os homens brancos, a melhor renda.
O Sudeste apresenta o melhor IDHM do Brasil: 0,827, enquanto o Nordeste, o menor: 0,762. Dez estados brasileiros apresentaram IDH acima de 0,80, atingindo desenvolvimento humano muito alto. Entre eles, Minas Gerais com o IDHM de 0,809. Já os outros 17 ficaram acima de 0,7, o que significa alto desenvolvimento humano.
Dez estados brasileiros apresentaram IDH acima de
0,80, atingindo desenvolvimento humano muito alto”
A Região Metropolitana de Belo Horizonte aparece como a quarta do Brasil, com IDHM de 0,84.
A importância desta classificação decorre do fato de que o IDH é aplicado em todo o mundo, o que permite comparações e análises, pois é apurado em 193 países. O índice foi desenvolvido pela ONU ainda nos anos 90, no século passado. É uma metodologia que leva em conta três componentes: expectativa de vida ao nascer; anos de escolaridade da população adulta; e renda média da população. Estes três componentes são subdivididos em muitos outros, para fornecerem resultados bem embasados.
E os técnicos do IBGE esclarecem ainda que O IDH pode não ter alcançado tudo, mas já alcançou muito... Mudou a forma como o desenvolvimento é percebido e analisado, bem como a forma como os resultados do desenvolvimento são medidos. Também tem influenciado a elaboração e a orientação das políticas públicas.”
O IDHMAD - Mas nem tudo são flores. No mesmo documento, o IBGE calcula também o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Ajustado à Desigualdade: IDHMAD. Este índice tem o propósito de considerar as desigualdades internas presentes na distribuição das conquistas em cada uma das dimensões do IDH. Apresenta, em termos percentuais, a parcela do desenvolvimento humano perdida em decorrência da desigualdade, correspondente à diferença entre o valor do IDHM e o do IDHMAD.
Comparando-se os dois índices, vemos que, enquanto o IDHM evolui de 0,744 para 0,805 entre 2012 e 2024, o IDHMAD vai de 0,566 para 0,641. A desigualdade reduz o IDHM em vinte pontos percentuais. É o que se perde em qualidade de vida.
E quem puxa para baixo é a dimensão renda, que alcança apenas 0,508 no IDHMAD. Estes números foram objeto de uma profunda reflexão por parte do presidente do IBGE, Marcio Pochmann, que declarou na introdução do informe do órgão:
"O IDHMAD representa mais do que uma inovação metodológica: ele é um instrumento de política pública. Ao ajustar o índice pelas desigualdades internas a cada dimensão, revela-se que o desenvolvimento humano real é menor e mais frágil do que os índices médios sugerem. Reconhecer essa fragilidade é o primeiro passo para superá-la."
E arremata: "O Brasil já possui riqueza, capacidade produtiva, tecnologia e conhecimento suficientes para oferecer condições dignas à totalidade de sua população. O problema deixou de ser a escassez absoluta. O desafio agora é político, social e distributivo."
Bom que se diga: não apenas o IDH do Brasil é afetado pela desigualdade. Nos relatórios da ONU, podemos ver que todos os países com IDH muito alto tiveram seu índice reduzido pela introdução da desigualdade. Por isso, este ajuste não retira o mérito da conquista brasileira.
Apesar da nossa desigualdade histórica,
com a qual convivemos por mais de um século,
tivemos conquistas extraordinárias”
Pelo contrário. Mostra que, apesar da nossa desigualdade histórica, com a qual convivemos por mais de um século, tivemos conquistas extraordinárias. A desigualdade de renda remonta ao nosso passado escravocrata, à péssima qualidade do sistema educacional e ao nosso modelo de desenvolvimento. O mais importante é que estamos colhendo resultados de políticas públicas desenhadas para enfrentá-la.
Há muitas outras informações interessantes no trabalho do IBGE. Vale a pena a leitura e análise, sobretudo para formulação de políticas sociais por empresas, ONGs e prefeituras. Embora ainda não haja dados específicos do Vale do Aço, muita coisa pode ser inferida e orientar análises e políticas públicas. O último IDHM de Ipatinga foi de 2010 e chegou a 0,771. E agora, será que estaremos também no seleto grupo acima de 0,8?. A seguir, o link com o estudo: [link: https://www.undp.org/pt/brazil/publications/radar-idhm-evolucao-do-idhm-e-de-seus-componentes-periodo-de-2012-2024| www.undp.org/pt/brazil]
* Economista, empresário. Morador do Vale do Aço
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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Gildázio Garcia Vitor
03 de junho, 2026 | 09:58Além do "passado escravocrata", devemos considerar outras variáveis, como, por exemplo, a colônia de exploração baseada nas Capitanias Hereditárias e a Lei de Terras, de 1850.”
Jorge Raimundo
03 de junho, 2026 | 09:33?tima análise, como sempre. Não conhecia o índice ajustado para desigualdade.”