05 de junho, de 2026 | 08:00

A soberania do Pix não está à venda, Eduardo

Carlos Alberto Costa *

A subserviência de alguns brasileiros aos Estados Unidos talvez nem Freud explicasse. Em determinados casos, o fenômeno parece extrapolar o campo da política e ingressar no terreno da psicologia social. Trata-se da velha e conhecida “síndrome de vira-lata”, conceito cunhado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues para definir o complexo de inferioridade que leva parte dos brasileiros a acreditar que tudo o que vem de fora é melhor do que aquilo que o próprio país produz.

O Brasil é uma das maiores economias do mundo. Pode e deve manter relações diplomáticas e comerciais com qualquer nação, mas jamais se curvar aos interesses de outro país. Infelizmente, não é isso que parece pensar o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro.


“Nenhuma nação se torna grande abrindo mão
de suas conquistas para agradar governos estrangeiros”


Assisti com espanto a um vídeo em que ele sugere que o Brasil negocie uma alternativa ao Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central, em favor do Zelle, plataforma privada utilizada nos Estados Unidos. A comparação, por si só, já revela um profundo desconhecimento sobre a realidade dos dois sistemas.

O Pix revolucionou a forma como os brasileiros movimentam dinheiro. Funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, permitindo transferências instantâneas entre pessoas, empresas, comerciantes, prestadores de serviços e órgãos públicos. Tornou-se uma ferramenta essencial para milhões de brasileiros e ajudou a reduzir custos em um sistema financeiro historicamente marcado por tarifas elevadas.


“O respeito internacional nasce da capacidade
de defender os próprios interesses, e não da
disposição de se ajoelhar diante deles”


O Zelle, por sua vez, é uma plataforma privada utilizada principalmente para transferências entre contas bancárias de pessoas físicas nos Estados Unidos. Não possui o mesmo grau de universalização, alcance social e integração econômica alcançados pelo modelo brasileiro. Comparar os dois sistemas como se fossem equivalentes é ignorar diferenças fundamentais.

A defesa de uma alternativa ao Pix surge justamente em um momento delicado. O sistema brasileiro passou a ser alvo de questionamentos de autoridades norte-americanas, em meio às pressões comerciais exercidas pelo governo Donald Trump contra o Brasil. Não por acaso. O sucesso do Pix afetou modelos de negócios que dependem da cobrança de taxas sobre transações financeiras, especialmente aqueles ligados às grandes operadoras de cartões de crédito.

Enquanto milhões de brasileiros fazem pagamentos sem custo adicional, empresas que operam bandeiras de cartões de crédito como a Visa e a Mastercard, lucram com tarifas observam uma redução de receitas. É compreensível que grupos econômicos defendam seus interesses. O que causa perplexidade é ver brasileiros adotando esse discurso e trabalhando contra uma das mais bem-sucedidas inovações financeiras já desenvolvidas pelo país.

Ao sugerir uma negociação baseada em um sistema estrangeiro, Eduardo Bolsonaro transmite uma mensagem preocupante de alinhamento automático aos interesses de Washington em um setor estratégico para a soberania nacional. O debate não é apenas tecnológico ou financeiro. Trata-se de autonomia.

A fala do "bolsonarinho" é uma sinalização clara de submissão aos interesses dos Estados Unidos em um setor estratégico para a soberania financeira brasileira. Trata-se de uma postura que, na prática, coloca os interesses de uma potência estrangeira acima de uma das mais bem-sucedidas inovações já desenvolvidas pelo Brasil.

O exemplo da Bolívia deveria servir de reflexão. O país atravessa uma grave crise política e social, com manifestações que se arrastam há semanas, bloqueios de estradas e milhares de pessoas nas ruas exigindo mudanças de rumo do governo do presidente direitista Rodrigo Paz Pereira, que fez um alinhamento entreguista ao governo dos Estados Unidos. A população boliviana demonstra que não aceita passivamente decisões que considera contrárias aos interesses nacionais. Que os argentinos também reflitam sobre os riscos da dependência econômica e política diante de interesses externos. Nenhuma nação se torna grande abrindo mão de suas conquistas para agradar governos estrangeiros. O respeito internacional nasce da capacidade de defender os próprios interesses, e não da disposição de se ajoelhar diante deles.

O Pix pertence ao Brasil. Foi desenvolvido por instituições brasileiras, atende às necessidades dos brasileiros e se tornou referência internacional em pagamentos instantâneos. Sua existência demonstra que o país é plenamente capaz de criar soluções eficientes, modernas e acessíveis sem depender da tutela de potências estrangeiras.

A declaração de Eduardo Bolsonaro também se soma ao desgaste provocado por manifestações de aliados políticos que tentaram relativizar medidas hostis adotadas pelo governo Trump contra produtos brasileiros. A coincidência entre a intensificação dessas pressões e a defesa de interesses alinhados ao mercado norte-americano apenas reforça a percepção de que determinados setores políticos demonstram mais preocupação em agradar Washington do que em defender conquistas nacionais.

Nenhum país sério abre mão de suas ferramentas estratégicas para satisfazer interesses externos. Os Estados Unidos não fariam isso. A China não faria isso. A União Europeia não faria isso. Não há razão para que o Brasil faça.

O debate sobre o Pix transcende governos, partidos ou ideologias. Trata-se de uma conquista nacional que beneficia milhões de cidadãos diariamente. Defender sua permanência e seu fortalecimento não é um ato de partidarismo. É uma questão de soberania.

O Brasil pode dialogar com qualquer nação do mundo, mas precisa ter clareza de que cooperação não significa submissão. E quando uma ferramenta brasileira se torna tão eficiente que incomoda interesses estrangeiros, talvez isso seja a maior prova de que estamos no caminho certo.

* Professor aposentado

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário