10 de junho, de 2026 | 07:00
Atlas da Violência: crimes digitais, quadrilhas e feminicídio são destaques
Antonio Nahas Junior *
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou recentemente a versão para 2026 do Atlas da Violência. O relatório é publicado há dez anos e tem por objetivo fornecer dados para a formulação de políticas públicas de combate ao crime para cidades, estados e o governo federal.O Atlas frisa que o tema segurança pública assumiu o centro da agenda política e midiática brasileira nos últimos quatro anos. O assunto interessa cada vez mais a todos. E não é para menos: a cada dia, a população se espanta com os crimes horrendos que aparecem na mídia.
Segundo o documento, o crime no Brasil apresenta novidades. A primeira delas é a mudança no perfil dos crimes contra o patrimônio, vulgarmente chamados de roubos e furtos. Se antes os indivíduos geralmente sofriam esse tipo de crime nas ruas, hoje não é suficiente se resguardar em condomínios ou tomar as medidas de gerenciamento de risco mais conhecidas, como evitar circular em determinadas áreas. Isso porque, enquanto o número de roubos reportados à polícia caiu pela metade, os estelionatos, principalmente os virtuais, multiplicaram-se mais de cinco vezes. Os criminosos aproveitaram o aumento das transações feitas por aplicativos de celular e pela internet para multiplicar seus rendimentos com golpes digitais, incorrendo em riscos menores.
Essa mudança no crime e em seu espaço de atuação surpreendeu as autoridades, que não estavam preparadas para enfrentar adequadamente os novos desafios. Agora, especialistas no mundo digital, muitas vezes com ótima escolaridade e boa condição financeira, comandam esses crimes.
Outra mudança foi a transformação na governança e na penetração territorial do crime organizado. Há alguns anos, esse fenômeno era percebido apenas nas facções que operavam o varejo das drogas nos territórios periféricos das grandes cidades. Porém, aos poucos, como ocorreu no Rio de Janeiro, assistimos à expansão de áreas em que o controle territorial armado do crime foi a "ponta de lança para a expropriação econômica e de outros direitos fundamentais dos residentes locais". E mais: atualmente, o crime organizado não está apenas nas capitais. Atinge cidades menores e o interior do país.
Com o desenvolvimento e a consolidação de um modelo de negócio criminal mais sofisticado, houve a diversificação das atividades. As organizações criminosas se inseriram inclusive dentro das cadeias produtivas legais e das administrações públicas. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública, integrado por policiais e gestores públicos de todo o país, estima que o mercado da cocaína representa apenas 10% da receita do crime organizado, ficando atrás de outros segmentos, como os de combustíveis, ouro, cigarros, bebidas e crimes virtuais. O crime organizado legalizou-se e passou a ficar mais próximo do que se imagina. Hoje, senhores engravatados, moradores de condomínios de luxo, podem perfeitamente comandar o crime.
Atualmente, o crime organizado não está
apenas nas capitais. Atinge cidades menores
e o interior do país”
E frisa o Atlas: "Tal transformação estrutural no crime tem não apenas ameaçado os negócios legais, mas também contribuído para aumentar a percepção de insegurança e, no limite, ameaçado até o próprio Estado Democrático de Direito".
Por fim, mais um tema que recrudesceu: a violência de gênero. Os feminicídios e a violência sexual persistem de forma preocupante em uma sociedade cada vez mais urbana e com escolaridade crescente. A cultura misógina recrudesceu, principalmente entre os jovens. Segundo o Atlas, merece atenção especial "o recrudescimento da cultura red pill. Inserida no ecossistema mais amplo da chamada machosfera, essa ideologia difunde a falsa ideia de que os homens estariam sendo prejudicados pelo feminismo e de que as mulheres seriam manipuladoras, interesseiras ou naturalmente inferiores".
Que vergonha existirem, ainda hoje, essas imbecilidades vagando pela internet e ganhando apoio. O Atlas considera que os homicídios de mulheres dentro das residências são um claro indicador de feminicídio. E essa taxa não está caindo: permanece estável ao longo do tempo. Foram registrados, no ano passado, mais de 1.500 feminicídios no Brasil, indicando a gravidade do problema. São mais de quatro feminicídios por dia.
Outro dado surpreendente é a estimativa do número de estupros. São declarados anualmente 87.545 casos. Entretanto, os pesquisadores consideram que a grande maioria não chega a ser registrada, por vergonha, temor de represálias e falta de assistência social e orientação. Por isso, estimam o número em 822 mil por ano.
Todos esses fatores levam ao aumento da sensação de insegurança, o que contribui para acirrar e polarizar o debate.
Os feminicídios e a violência sexual persistem
de forma preocupante”
Taxa de Homicídios - O Atlas relata também a taxa e o número de homicídios totais que aconteceram no Brasil, nos estados e nas principais cidades. Leva em conta não apenas os homicídios registrados nas delegacias, mas também parte das mortes violentas registradas como de "causa indeterminada".
No Brasil ocorreram 49.763 homicídios em 2024. Isso corresponde a uma taxa de 23,4 por 100 mil habitantes, ou 137 homicídios por dia. Números tão elevados merecem análise detalhada de pesquisadores e autoridades.
Há números também para Ipatinga. Ocorreram na cidade 55 homicídios em 2024, declarados ou não. Isso corresponde a uma taxa de 23,4 por 100 mil habitantes, índice acima do verificado em Minas Gerais. Quem se interessar pode acessar o link abaixo. Há muitas outras informações valiosas sobre temas diversos:
https://forumseguranca.org.br/publicacoes/atlas-da-violencia/
* Economista e empresário. Morador do Vale do Aço.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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