11 de junho, de 2026 | 07:00
Os vampiros e a escala de trabalho sete por zero
Paulo da Rocha Dias *
Algumas famílias ricas, empresários e parlamentares brasileiros se levantam contra a já aprovada escala de cindo dias de trabalho e dois de descanso para o nosso trabalhador comum. Um grupo de quarenta senadores, entre os quais estão o Cleitinho e o Carlos Viana, propõe um projeto de emenda constitucional de sete dias de trabalho e nenhum de folga. A chamada escala 7x0.
A rotina semanal ou diária do trabalhador brasileiro comum é mais ou menos assim: de segunda a sábado esse trabalhador levanta às quatro da manhã, pega um ônibus superlotado, viaja em pé por até 60 minutos, trabalha oito horas e tem uma para se alimentar e descansar. Depois de duas horas na lotação e nove no ambiente de trabalho, retorna à sua casa no mesmo ônibus superlotado que leva outras duas horas para fazer o trajeto. Somadas mais duas horas diárias para satisfazer outras necessidades físicas, como alimentar-se, limpar-se, vestir-se etc chega-se a uma rotina de 15 horas diárias.
O domingo não é para o descanso. É o tempo que o trabalhador tem para fazer um bico, capinar o quintal, bater uma laje, rebocar uma parede, pintar um quarto, ir ao supermercado. Em resumo, uma vida sem descanso, sem lazer e sem crescimento cultural e intelectual. E também sem dinheiro, pois, diferente dos deputados, esse trabalhador ganha em média R$ 1.518,00 por mês.
Nossos deputados e senadores são funcionários públicos assalariados. A diferença é que recebem 30 vezes mais que o ordenado médio do trabalhador brasileiro e trabalham numa escala três por quatro, isto é, comparecem três dias por semana ao local de trabalho e folgam quatro.
O salário de R$ 46.366,19 que recebem não é nada diante dos R$ 165.806,07 de verba de gabinete, mais R$ 41.600,00 para passagens aéreas, combustível, hospedagem, aluguel de escritório e divulgação do que (não) fazem. As benesses não terminam por aí. Tem ainda um modesto auxílio moradia de R$ 4.253,00 e outro montante para as despesas de saúde. No total, contam com a bagatela R$ 291.000,00 por mês por três dias de trabalho por semana. E podem faltar à vontade.
Já a família de um empresário rico cumpre uma escala zero por sete. Nenhum dia de trabalho por sete de ócio e lazer que são gastos em projetos pessoais e familiares. As atividades semanais dessa família rica seguem mais ou menos este ritmo: de segunda a sexta-feira os empregados da casa levam a esposa e os filhos para a escola na parte da manhã. À tarde são encaminhados para as aulas de inglês, balé, piano e natação. Quando vem a noite, há que se ir à academia, ao cinema, ou a algum jantar ou festa.
Ninguém deveria viver exclusivamente no ócio e no deleite.
Nem parlamentares, nem juízes e nem famílias ricas”
Aos sábados, a família vai às compras e depois ao lazer. É o fim de semana de deleite ou na casa de praia, ou na chácara, ou na residência de verão-inverno onde fica até domingo à noitinha. De sorte que cada dia da semana tem suas ocupações específicas que vão se repetindo periodicamente.
Nessa sociedade não se fala em trabalho. Ao longo da história sempre existiu gente assim: o belo e bom ateniense, os chamados cidadãos romanos”, o escravocrata e o landlord (senhor rural) brasileiros.
Quem vive exclusivamente no ócio e na riqueza e busca
desumanizar o outro fazendo-o trabalhar sete dias por
semana age como um vampiro”
A regulamentação da jornada de trabalho tem se resumido historicamente em uma luta em torno dos limites dessa jornada. Por volta dos anos 1850, homens, mulheres e crianças inglesas trabalhavam até dezoito horas por dia nas fábricas de tecidos. Hoje, seja um ser humano, seja um cavalo, durante um dia natural de 24 horas, deve-se trabalhar oito, como rezam os dispositivos legais. Isto é suficiente para não morrer de fadiga e também para a autoconservação.
Ninguém deveria viver exclusivamente no ócio e no deleite. Nem parlamentares, nem juízes e nem famílias ricas. Todos deveriam trabalhar o tempo suficiente de oito horas não apenas para satisfazer às necessidades e manter o processo de reprodução da vida, mas também para dar sentido à própria existência.
Durante uma parte do dia, que se convencionou ser também de oito horas, a pessoa precisa descansar, dormir, até mesmo para ser capaz de trabalhar amanhã com o mesmo nível normal de força, saúde e disposição com que trabalhou hoje. São os limites físicos ao trabalho. E sabemos que ninguém é de ferro.
Além desses limites puramente físicos, há também limites morais que deveriam impedir o prolongamento da jornada de trabalho. O trabalhador precisa de tempo para satisfazer suas necessidades intelectuais e sociais, cuja extensão e número são por ele mesmo determinados. É o tempo de ir à igreja, visitar um parente, socorrer um vizinho, participar do andamento do bairro, participar da festa junina, tomar uma cerveja no bar da esquina, e muito importante, estudar e desenvolver suas habilidades intelectuais e culturais.
Quem vive exclusivamente no ócio e na riqueza e busca desumanizar o outro fazendo-o trabalhar sete dias por semana age como um vampiro. Vive apenas da sucção do trabalho do outro. E vive tanto mais quanto mais suga. É o puro ócio de uma parte da sociedade em qualquer parte do mundo, inclusive no Brasil.
* Jornalista, escritor e professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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Carlos
12 de junho, 2026 | 04:02O principal entendimento dessa discussão da escala 6x1 recai num tema antigo e complexo, a falta de consciência de classe. Ela é o mecanismo central de dominação e perpetuação da extrema desigualdade e antenção de privilégios para determinadas classes. O sociólogo Jessé de Souza explica que esse fenômeno não é um acidente, mas sim um projeto político e cultural extremamente bem-sucedido, construído historicamente pela elite para impedir a coesão social e manter seus privilégios econômicos e sociais. Por isso a redução da jornada não interessa a quem não trabalha.”
Tião Aranha
11 de junho, 2026 | 20:26Gostaria de responder ao colega Nelore com a seguinte pergunta: na sua opinião um candidato ao cargo máximo do país com apenas o quinto ano do ensino fundamental, um curso técnico de 3 meses, será mesmo que Ele tem competência para dirigir um país de dimensões continentais como o nosso? (Fala sério?) O Eduardo Bolsonaro realiza com competência todas as atribuições da defesa do pai e da nossa Democracia às quais ele ficou responsabilizado. E o Flávio vai muito bem na Campanha - podendo ser o futuro presidente do Brasil. Obrigado a todos leitores e em especial ao DA, por ter- nos permitido imparcialmente esse debate democrático. Até a vitória! Rs.”
Nelore
11 de junho, 2026 | 17:12Caríssimo Tião Aranha, e os filhos do seu Minto Inelegível e Prisioneiro domiciliar, que nem limparam cocô de nada e também são milionários? Um, inclusive, está foragido nos Estados Unidos.
E o assunto nem é esse. É sobre os 611 dias de prisão do Lula, sendo 31 em 1980, e 580 da pena decretada pelo Moro, que não dão nem dois anos, mas para vossa senhoria, é grande parte da vida dele.”
Tião Aranha
11 de junho, 2026 | 16:20Meu caro Nelore, o debate político está apenas começando. Um filho que se encontra foragido para a Espanha, era pobre, limpava cocô de elefante no zoológico, em SP, e hoje é bilionário, só um exemplo, não tenho nada com a vida alheia, mas isso compete a Justiça. Posso dar outros exemplos nessa família. A sua filosofia é do tipo de arma dos incompetentes: destruir para dominar. Nunca vi políticos serem denunciados por corrupção e devolver o dinheiro do roubo neste país. Cê já viu? Logo, no Brasil o crime compensa, e, como conhecedor da História, deve saber disso melhor que eu. Verdade, sou conhecido como um dos maiores comentaristas que essa região já. -Consulte no Google: "quem é esse Tião Aranha que comenta no Diário do Aço?". ( A IA só errou quando afirmou que nunca comentei nos principais jornais do país). Mas estou sempre aprendendo, e se é que escrevo minhas opiniões que já incomoda tanto o Sistema, então, porquanto, todo meu sacrifício valeu a pena!. Burrice é persistir no erro. Eu teria muita vergonha se tivesse algum dia sido seu aluno. Aliás, toda História tem dois lados: um falso e outro verdadeiro. O seu lado com certeza deve ser o falso. Desculpe-me pelo mal jeito!. Rs.”
Nelore
11 de junho, 2026 | 13:31Caríssimo Tião Aranha, o Lula passou grande parte da vida dele na cadeia? Tá de sacanagem, né? Depois fica ofendido, e coloca a carapuça, quando falo sobre mau caratismo. Afinal, vossa senhoria é o maior comentarista da região.
Com relação a pegar dinheiro e forçar o trabalhador a voltar ao serviço sem nenhum ganho, é verdade, verdadeira, deve ser por isso, que ele se tornou o sindicalista mais importante da história do movimento sindical do Brasil
Os primeiros e importantes movimentos sindicais tiverem início na década de 1910, levando à greve geral de 1917. O Lula é dos líderes dos movimentos das décadas de 1970 e 1980, durante a ditadura militar. Rs.”
Tião Aranha
11 de junho, 2026 | 09:19Pensei que o nordestino vindo de Garanhuns, cidade que construiu o primeiro Despertador, disse que passou fome, andou de pau de arara, passou grande parte da sua vida na cadeia. Negociando os primeiros mvtos sindicais do país, pegando dinheiro e forçando o trabalhador voltar às empresas sem nenhum ganho fosse resolver a questão trabalhista do Brasil. Precipitou! Rs.”