13 de junho, de 2026 | 09:20

O boom das canetas e o avanço do uso sem prescrição: porque o Brasil precisa discutir o tema como saúde pública

Thamires Cappello *

Desde que aprovadas para o uso, as canetas emagrecedoras, como as que possuem semaglutida e tirzepatida, transformaram o emagrecimento no Brasil. No entanto, uma investigação conduzida pela Anvisa no começo do ano revelou que o comércio eletrônico ilegal desses medicamentos cresceu expressivamente, determinando a intensificação da fiscalização e a suspensão de sites e perfis de redes sociais que vendiam os fármacos sem exigir receita. Além disso, dados oficiais emitidos pela agência após a nova regra de retenção obrigatória de receita médica apontam que as notificações de efeitos colaterais graves do uso inadequado dessas substâncias aumentaram consideravelmente, gerando inclusive um plano de monitoramento contínuo de reações adversas. Sendo assim, o tema tornou-se uma crise de saúde pública.

Diante desse cenário, fica evidente que o fenômeno das canetas emagrecedoras ultrapassou os limites dos consultórios médicos para se transformar em um desafio coletivo urgente. A banalização de medicamentos de alta complexidade, tratados muitas vezes como soluções estéticas milagrosas nas redes sociais, mascara pontos de atenção do uso e sobrecarrega o sistema de saúde com complicações totalmente evitáveis. Para que o Brasil consiga conter esse panorama, não basta apenas intensificar a fiscalização do comércio ilegal; é preciso promover uma conscientização profunda sobre os limites da automedicação e democratizar o acesso ao tratamento seguro da obesidade.

O uso indiscriminado dessas substâncias para finalidades puramente estéticas e sem acompanhamento expõe o organismo a diversos perigos, podendo causar reações adversas severas, como casos de pancreatite aguda, problemas na vesícula e distúrbios gastrointestinais graves, entre outros. A automedicação ou a aquisição de produtos de forma clandestina aumentam a chance de ingestão de doses inadequadas. Por sua vez, o emagrecimento rápido sem diagnóstico pode ocultar problemas metabólicos ou endócrinos subjacentes.

“A investigação da Anvisa revela que o comércio ilegal
desses medicamentos cresceu o tema tornou-se uma
crise de saúde pública”


O cenário de descontrole levou a Anvisa a endurecer as regras e determinar que as canetas emagrecedoras só poderão ser comercializadas mediante a retenção obrigatória da receita médica de duas vias. Sem o acompanhamento de um profissional de saúde para avaliar os critérios metabólicos e endócrinos, o comércio paralelo ganha força. Assim, o fácil acesso a produtos irregulares na internet e em regiões de fronteira acendeu um alerta na Polícia Federal e na Receita Federal devido ao crescimento do mercado de contrabando e à circulação de lotes falsificados no país.

Outro ponto que deve ser discutido é a respeito da gravidade do descarte. Diferente de medicamentos em comprimidos, essas medicações são compostas por materiais plásticos, componentes eletrônicos e resíduos biológicos perfurocortantes (agulhas). Ao jogar fora o produto no lixo comum ou reciclagem, há um enorme risco de contaminação do solo e transmissão de doenças para profissionais de limpeza urbana e catadores.

Como o avanço da medicalização da estética afeta a sociedade como um todo, incentivando a automedicação e o descumprimento de normas sanitárias, causa um grande impacto como saúde pública e geral. Para enfrentar o problema, especialistas e autoridades pedem que seja feito um aprimoramento regulatório, com rigor na fiscalização de farmácias de manipulação, clínicas de estética e plataformas digitais. Além disso, é preciso realizar campanhas contra a influência de "padrões estéticos" vendidos nas redes sociais sem responsabilidade, aumentando a conscientização digital. Também se faz necessário educar a sociedade e espalhar as informações sobre como as canetas são medicamentos de alto custo para tratamento de obesidade e diabetes tipo 2, não sendo pílulas mágicas de uso trivial.

“O fácil acesso a produtos irregulares na internet
e em regiões de fronteira acendeu um alerta nos
órgãos de controle”


Em última análise, o debate sobre as canetas emagrecedoras reforça a importância de tratar a obesidade como uma questão de saúde que exige acompanhamento adequado, informação de qualidade e uso consciente da medicação.

Embora esses tratamentos representem um avanço importante para pacientes com indicação clínica, o uso sem orientação profissional pode trazer riscos à saúde e comprometer a segurança do tratamento. Por isso, ampliar o acesso à informação, fortalecer a conscientização sobre automedicação e incentivar o acompanhamento médico são passos fundamentais para que essas terapias sejam utilizadas de forma responsável e segura.

* Diretora jurídica da Voy. Doutora em Ciências da Saúde e Saúde Pública pela USP. Mestre em Direito pela PUC/SP. Pesquisadora no Centro de Direito Sanitário da USP.

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