16 de junho, de 2026 | 07:00
A tragédia da sociedade do espetáculo em que todos filmam e ninguém enxerga o real
Carlos Alberto Costa *
A morte da estudante de Educação Física Maria Eduarda Rodrigues, de apenas 21 anos, durante um salto de pêndulo humano em um viaduto de Limeira (SP), não pode ser tratada como apenas mais um acidente isolado. Lembro-me que, em novembro de 2020, o Diário do Aço noticiou um caso semelhante em nossa região. O técnico em informática nova-erense Adam Esteves Gomes Dias Martins Cardoso, de 25 anos, praticava a modalidade conhecida como Hope Jump, também chamada de pêndulo humano”, quando saltou do Viaduto da Prainha, em Nova Era. A corda utilizada perdeu a ancoragem e estava mais longa do que o necessário para mantê-lo suspenso. Ele atingiu o solo e morreu na hora, assim como Maria Eduarda. Os responsáveis pela empresa que promovia a atividade foram detidos e levado para a delegacia de Polícia Civil em Ipatinga onde prestaram depoimento e um inquérito foi aberto para tratar do caso, do qual nunca mais se ouviu falar.
A diferença entre os dois casos é perturbadora: Maria Eduarda foi lançada sem qualquer corda presa ao corpo. Esse detalhe torna a tragédia ainda mais chocante e nos obriga a refletir sobre um fenômeno cada vez mais presente em nossa sociedade: a distração generalizada provocada pelo excesso de telas e pela necessidade constante de registrar tudo.
As imagens gravadas no local mostram três instrutores completamente despreparados. O mais impressionante é que existem registros feitos de vários ângulos diferentes, e nenhum deles revela alguém atento ao elemento mais básico daquela atividade: a segurança da jovem.
Vivemos na sociedade do espetáculo, em que tudo precisa ser filmado,
fotografado e publicado nas redes sociais”
São várias camadas de falhas fatais. Há a própria participante, que, no calor da emoção e da adrenalina, aparentemente não percebeu que não estava conectada ao sistema de segurança. Nenhum dos três instrutores percebeu a ausência da corda. Estava ali o namorado dela, que também não notou o problema porque gravava a cena. Outras pessoas faziam o mesmo. Todos registravam o espetáculo, mas ninguém observava o óbvio.
Vivemos na sociedade do espetáculo, em que tudo precisa ser filmado, fotografado e publicado nas rdes sociais. As pessoas estavam preocupadas em produzir conteúdo, em performar para uma audiência virtual, em vez de verificar se uma vida estava protegida.
Em um dos vídeos, no exato momento em que Maria Eduarda é lançada, alguém exclama: Meu Deus, a corda!”. Em outra gravação, antes do salto, uma pessoa pergunta: Mas cadê a corda?”. E o mais espantoso é que ninguém tomou a atitude de interromper a atividade ou alertar os responsáveis. Ninguém gritou. Ninguém agiu. Por quê? Porque todos estavam ocupados olhando para a tela do celular.
É provável que Maria Eduarda, tomada pela emoção daquele momento, não tenha percebido a ausência da corda. Mas os demais não tinham essa desculpa. O que ocorreu ali tem relação direta com uma cultura crescente de distração coletiva. Vivemos no mundo real com a atenção permanentemente voltada para o mundo virtual. E isso está produzindo consequências cada vez mais graves.
Esse infeliz acontecimento - o segundo desse tipo de que tenho conhecimento em poucos anos - não fala apenas sobre um erro operacional. Fala sobre uma época. Uma humanidade cada vez mais distraída, que normaliza o improviso, o descuido, a pressa e o descompromisso com a vida alheia.
As pessoas estavam preocupadas em performar para uma audiência virtual,
em vez de verificar se uma vida real estava protegida”
As imagens revelam algo ainda mais preocupante: estamos mergulhados em uma cultura estrutural da distração. Redes sociais, algoritmos, vídeos curtos sem fim e estímulos constantes disputam nossa atenção a cada segundo. As pessoas passam horas deslizando o dedo pela tela, perdendo a capacidade de permanecer presentes, de observar o ambiente e de perceber riscos evidentes.
Ao mesmo tempo, convivemos com a precarização do trabalho, a informalidade crescente, o enfraquecimento do Estado e a redução da fiscalização. O tanto faz” e o deixa assim” transformaram-se em comportamentos socialmente tolerados. Quantas vidas ainda serão perdidas porque alguém deixou de prestar atenção ao óbvio?
Os casos de Maria Eduarda Rodrigues e Adam Esteves Gomes Dias Martins Cardoso não podem ser tratados como fatos isolados. São sintomas de um problema maior. São sinais de um tempo cultural em que a atenção se tornou escassa e a responsabilidade coletiva parece ter perdido valor.
Quem analisa essa tragédia apenas como uma fatalidade ou um simples caso de desatenção não está compreendendo a dimensão do problema. O que aconteceu não fala apenas sobre um erro. Fala sobre uma época.
E, quando parece impossível surgir algo mais absurdo, um advogado dos responsáveis declara que a atividade vinha sendo praticada havia vários anos sem acidentes. Longe de servir como defesa, essa afirmação evidencia um fenômeno bem conhecido nos estudos de segurança: a normalização do desvio. Quando práticas inseguras deixam de gerar consequências imediatas, passam a ser vistas como aceitáveis. Até que a tragédia acontece.
Há inúmeros fatores humanos envolvidos: distração, complacência, deficiência de treinamento, falta de conhecimento técnico, ausência de consciência situacional e falhas organizacionais.
Mas existe também uma responsabilidade que não pode ser ignorada pelas autoridades públicas. A ausência de regulamentação adequada para essa modalidade de alto risco criou uma zona cinzenta na qual empresas operam praticamente sem supervisão efetiva. A omissão fiscalizatória e a falta de regras claras formam uma combinação perigosa. E, quando isso acontece, não se trata apenas de uma falha administrativa. Trata-se de uma falha que mata.
*Professor aposentado
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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