21 de junho, de 2026 | 10:00

Além do ''prompt'': o abismo na formação docente diante da IA

Miriã Salles *


A Inteligência Artificial chegou às salas de aula sem pedir licença, mas encontrou um sistema de defesa fragilizado. O problema não reside na tecnologia, mas em um gargalo histórico que agora cobra seu preço: a formação de professores no Brasil. Enquanto discutimos o que o estudante deve ou não fazer com a ferramenta, ignoramos que o corpo docente, em sua maioria, foi formado em uma "pedagogia da resposta", num modelo que pouco prioriza a construção da autonomia e do pensamento crítico, exatamente as competências que a IA agora torna vitais.

É preciso reconhecer que as matrizes curriculares das licenciaturas ainda operam em um inevitável descompasso em relação à velocidade estonteante das transformações tecnológicas. Nossos cursos de Pedagogia, em sua maioria, foram estruturados para um mundo analógico, em que o professor era a fonte primária da informação. Mais do que apontar falhas isoladas, é urgente que as instituições de ensino superior liderem uma revisão profunda de suas bases, integrando a lógica da investigação e a ética da IA como pilares centrais. Ou reformamos a formação de quem ensina, ou continuaremos preparando profissionais para salas de aula que já não existem mais.

Ensinar um estudante a “fazer boas perguntas” para uma IA não é um exercício trivial; é uma técnica que exige domínio de lógica, síntese e, acima de tudo, um vasto repertório cultural. No entanto, como exigir que o professor medie essa arquitetura do pensamento se ele mesmo não foi instrumentalizado para tal? O que vemos é um abismo entre a realidade tecnológica das escolas e currículos que raramente abordam como ensinar e desenvolver estudantes autônomos e críticos.


“O problema não reside na tecnologia, mas em um
gargalo histórico que agora cobra seu preço”


Se não houver uma modificação profunda e urgente na formação docente, a exclusão educacional no país mudará de face. O risco não é mais o “analfabetismo digital”, mas o “analfabetismo funcional cognitivo”. Teremos uma elite educada para ser arquiteta de sistemas, que sabe usar a IA para potencializar seu intelecto, e uma massa de estudantes que apenas consome passivamente o que o algoritmo entrega, sem capacidade de crítica ou validação.

A formação de professores precisa migrar da entrega de conteúdo para a gestão da investigação. Isso exige currículos que abordem a ética dos dados, a lógica da argumentação e a mediação de processos de aprendizagem. O professor não será substituído pela IA se ele for o mentor que ensina o estudante a navegar no mar de dados com bússola própria. A exclusão aumentará drasticamente se continuarmos ignorando que a base do sistema precisa de uma nova gramática pedagógica.

* Diretora do Colégio Santo Ivo.


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