adriana 728x90

24 de junho, de 2026 | 07:20

Ai de ti, Haiti

Antonio Nahas *

Tostão, o grande craque do Cruzeiro, disse uma vez que o futebol e a Copa permitem o congraçamento dos povos. É lá onde se encontram asiáticos, árabes, africanos, europeus, latino-americanos, comunistas, judeus, países em guerra, pretos, brancos, louros, enfim: toda a humanidade.

E os jogos acontecem deixando de lado a pobreza e riqueza dos países. Tudo se decide dentro de campo. É a disputa envolvendo onze homens de cada lado. E, vendo isto e assistindo o jogo Brasil e Haiti, sinceramente, eu quase torci pelos haitianos...

Nada contra o Brasil, claro, mas foi por um profundo sentimento de consternação por tudo que passou e passa aquele país. O Haiti fica no mar do Caribe, entre a América do Sul e a do Norte e ocupa parte de uma ilha, que é dividida com a República Dominicana. Tem pouco mais de dez milhões de habitantes e é bem pequeno - 27 mil quilômetros quadrados, a mesma área do Estado de Alagoas.

Foi onde Cristóvão Colombo chegou, ao descobrir a América. Os franceses se apossaram da ilha e lá cultivaram cana de açúcar, café e algodão. Era a mais rentável das colônias franceses e sua população era composta basicamente de escravos: 470 mil no ano de 1789 e a cada ano aportavam 40 mil escravos vindo da África para substituir os falecidos. Mais de noventa por cento da população era escravizada. No mesmo período no Brasil, a população escrava não chegava a 50%. As revoltas eram inevitáveis e a abolição da escravatura aconteceu em 1793, quase um século antes do Brasil. Foi resultado de lutas e revoltas, impulsionadas pelos ecos da revolução francesa, ocorrida em 1789. E sua independência foi conquistada também antes do Brasil, no ano de 1804, quando a França já era governada por Napoleão Bonaparte.

“O preço que a França cobrou do Haiti em troca
da sua liberdade teve como principal consequência
o baixo desenvolvimento”


Mas, aí começaram os problemas.... A França só reconheceu a Independência do país em 1825 e exigiu condições tão pesadas, que arrasaram com o país. O rei da França, Carlos X, obteve do governo haitiano o compromisso de pagar à França uma dívida de 150 milhões de francos-ouro, a fim de indenizar os proprietários de escravos pela perda da sua propriedade. Ou o Haiti pagava ou seria invadido e teria sua economia bloqueada.

Em valores de hoje, a indenização seria equivalente a 40 bilhões de euros (2). E, para termos uma ideia do peso disto sobre a economia do Haiti, este valor representava 300% da renda nacional do Haiti em 1825, ano em que o acordo foi assinado. Dois anos do PIB do país.... E mais: apenas para quitar os juros da dívida, fixados em 5% ao ano, o Haiti teria que pagar o equivalente a 15% da sua produção anual.

Com estes números e sucessivas ameaças militares, os credores conseguiram extrair o equivalente a 5% da renda nacional haitiana por muitos anos. E a dívida de 1825 só foi oficialmente extinta e quitada de forma definitiva mais de um século depois, em 1951. Foi paga por mais de 125 anos...

O preço que a França cobrou do Haiti em troca da sua liberdade teve como principal consequência o baixo desenvolvimento social e econômico do país, que ainda hoje é um dos mais pobres do planeta. Foi uma extração de valores e dinheiro de um país paupérrimo por uma das nações mais ricas do mundo.

Reduzido à miséria e à pobreza, o Haiti foi ainda governado por tiranos absolutos, como François Duvalier, que se autodenominou Papa Doc, tirano que ficou no poder por mais de vinte anos. Era protegido por uma milícia chamada de Tonton Macoutes, que prendia e assassinava quem quisesse. E pior: foi sucedido pelo seu filho, Baby doc, que só saiu do poder em 1986.

“Reduzido à miséria e à pobreza, o Haiti foi ainda
governado por tiranos absolutos, como François Duvalier,
que se autodenominou Papa Doc”


E, após um terremoto devastador ocorrido em 2010, onde faleceram mais de 300 mil pessoas e que reduziu a ruínas boa parte da cidade de Porto Príncipe, sua capital, o país vive mergulhado na miséria e na desorganização política.

O PIB vem diminuindo a cada ano desde 2020. A pobreza extrema aumentou e quase metade da população vive com menos de 3 dólares/dia. Mais de quinze por cento da população teve que se deslocar por razões diversas. E as gangues dominam e governam boa parte da capital do país. (As informações sobre o Haiti no período colonial foram extraídas do livro Capital e Ideologia, de Tomas Piketty, publicado em 2020)

Por isto, eu quase torci para o Haiti. Eu fiquei impressionado ao ver como eles jogaram um bom futebol, apesar desta m*... toda. Perderam feio para a Escócia e o Brasil, mas se esforçaram muito. Estão fora da Copa, é certo. E, pelo que a gente sabe, vão torcer para o Brasil. A Copa permite a gente ter um panorama do mundo todo e, pelo menos naquele momento, ver a humanidade tão desigual e divida por guerras insanas se encontrar, torcer e se confraternizar após estes espetáculos maravilhosos. Viva a Copa!

E, se alguém me vir com uma camiseta do Haiti por aí, não se espante.... E, dito isto, Viva o Brasil... rumo ao Hexa...

* Economista, empresário. Morador de Ipatinga.

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário