26 de junho, de 2026 | 07:00
País rico, povo pobre; triste realidade do Brasil
Samuel Hanan *
O Brasil é um país com muitos problemas. Entretanto, ao contrário do que apregoam alguns governantes, entre as maiores dificuldades da nação não estão a falta de recursos financeiros, de talentos ou de riquezas naturais. Pelo contrário, há abundância em todas essas áreas. Então, por que um país tão rico tem um governo igualmente rico e uma população pobre?
Essa contradição merece reflexão. Os governos têm sido eleitos, em grande parte, pelos mais pobres. Assim, cabe perguntar: quantos governantes dos últimos 25 anos tiveram interesse real em reduzir a pobreza? Quem trabalharia para diminuir a própria base eleitoral? A conclusão de muitos é que o governo central gosta da pobreza, mas não dos pobres.
A máquina estatal custa 13,5% do PIB,
acima da média de 9,3% dos países da OCDE”
Uma das evidências apontadas é que o governo retira renda líquida das camadas mais vulneráveis e não oferece educação de qualidade. Afinal, uma população instruída não se submete facilmente a qualquer forma de servidão.
Isso ocorre de maneira pouco perceptível. A alteração na fórmula de cálculo do reajuste do salário mínimo (Lei 15.077, de 28 de dezembro de 2024) retirará R$ 249, em 2026, da renda de mais de 60 milhões de brasileiros, entre aposentados, pensionistas, beneficiários do BPC e cerca de 34% dos trabalhadores com carteira assinada. Além disso, o Bolsa Família não é reajustado desde março de 2023. Nesse período, a inflação acumulada corroeu aproximadamente 16% do benefício, equivalente a uma perda anual de R$ 1.536 por família atendida.
A situação pode se agravar com a reforma tributária. Caso a alíquota do IVA seja fixada entre 28% e 29%, o Brasil terá uma das maiores tributações sobre o consumo do mundo, dificultando a distribuição de renda. Os mais pobres pagarão mais tributos e terão menos recursos para despesas básicas. Como alertava John Kenneth Galbraith: Nada mais eficaz para limitar a liberdade, inclusive a de expressão, do que a falta de dinheiro”.
Na educação, o país também apresenta resultados preocupantes. O Brasil ocupa a 63ª posição em Matemática e a 56ª em Leitura e Ciências em rankings internacionais. Além disso, o analfabetismo funcional atinge 29% da população adulta. Como afirmava Frederick Douglass, o conhecimento torna o homem inadequado para a escravidão”.
O governo retira renda líquida das camadas mais
vulneráveis e não oferece educação de qualidade”
É possível mudar essa realidade. Para isso, seria necessário reduzir privilégios, conter o gigantismo estatal, combater a corrupção e não tolerar a impunidade. Vale recordar a frase de Ulysses Guimarães: A política não é profissão para enriquecer”.
O Brasil de hoje é marcado por uma tragédia em três atos que, segundo essa interpretação, consome mais de 12% do PIB, cerca de R$ 1,5 trilhão por ano.
O primeiro ato é o gigantismo do setor público. A máquina estatal custa 13,5% do PIB, acima da média de 9,3% dos países da OCDE. A diferença de 4,2 pontos percentuais representa aproximadamente R$ 567 bilhões anuais, parte dos quais é destinada à manutenção de estruturas de poder e benefícios corporativos.
O segundo ato é a corrupção. Estudos da FGV/IBRE estimam perdas equivalentes a 4% do PIB, cerca de R$ 540 bilhões por ano. Como dizia Jô Soares: A corrupção não é uma invenção brasileira, mas a impunidade é uma coisa muito nossa”.
Esse cenário se reflete nos indicadores internacionais. Em 2002, o Brasil ocupava a 45ª posição no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional. Em 2026, encontra-se na 108ª colocação.
O terceiro ato corresponde aos gastos tributários da União, as chamadas renúncias fiscais, que alcançam 5,7% do PIB. Segundo essa análise, o percentual supera o limite de 2% previsto pela Emenda Constitucional nº 109/2021, resultando em um excedente de aproximadamente R$ 500 bilhões anuais.
Somados, os três fatores representam cerca de R$ 1,6 trilhão por ano. Com menos da metade desse valor, seria possível ampliar significativamente os investimentos em saúde, educação, segurança pública, infraestrutura e habitação.
Como se vê, o Brasil dispõe de recursos financeiros. O que falta, segundo essa visão, é planejamento, gestão eficiente e compromisso com a boa aplicação do dinheiro público. A corrupção também se perpetua em razão da leniência com que muitas vezes é tratada.
O país possui mais de 100 milhões de pessoas vivendo com apenas um salário mínimo por mês, situação que, para os defensores dessa tese, é alimentada por políticas públicas equivocadas. Nesse contexto, argumenta-se que a reeleição para cargos do Executivo contribui para a manutenção desse quadro e deveria ser extinta.
Há caminhos para um Brasil mais justo, com melhor distribuição de renda e serviços públicos de qualidade. Não se trata de utopia, mas de reconhecer erros e corrigir rumos. Afinal, uma nação rica é aquela em que sua população vive com dignidade. Sem enfrentar essa realidade, o país continuará distante desse objetivo.
* Engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros Brasil, um país à deriva”, Caminhos para um país sem rumo” e Amazônia Brasileira, preservar para viver, responsabilidade mundial”
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]
















Tião Aranha
26 de junho, 2026 | 10:55Bom texto, neste cenário, o homem vale pela quantidade de dinheiro que tem no bolso. Se não tem, então não vale nada. Pior que votando em corruptos e analfabeto dificilmente teremos uma luz no fim do túnel. É só trabalhar como escravo pra manter essa cambada de vagabundos no poder. Só Deus na causa! Rs.”