12 de julho, de 2026 | 08:20
NR-1: investir na saúde mental deixou de ser opção e passou a ser estratégia
Miguel dos Santos *
Por muito tempo, a saúde mental no ambiente de trabalho foi tratada como um tema secundário. Muitas empresas restringiam suas iniciativas a campanhas de conscientização ou palestras ocasionais. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), entretanto, representa uma mudança de paradigma: cuidar dos riscos psicossociais deixa de ser apenas uma boa prática de gestão e passa a integrar as obrigações legais das organizações.
A alteração promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego nasceu de um amplo debate técnico na Comissão Tripartite Paritária Permanente (CTPP), formada por representantes do governo, dos empregadores e dos trabalhadores. O objetivo é adequar a legislação à realidade atual, marcada pelo aumento dos transtornos relacionados ao trabalho, como ansiedade, depressão, síndrome de burnout e outros agravos que afetam diretamente pessoas e empresas.
O adoecimento mental gera impactos diretos sobre
produtividade, absenteísmo, presenteísmo, rotatividade,
acidentes de trabalho e custos com afastamentos”
As mudanças introduzidas pela Portaria MTE nº 1.419/2024 determinam que os riscos psicossociais passem a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Isso significa que fatores como assédio moral, excesso de cobrança, metas inalcançáveis, jornadas prolongadas, conflitos internos e sobrecarga de trabalho deverão ser identificados, avaliados, monitorados e controlados pelas empresas, da mesma forma que já ocorre com riscos físicos, químicos e ergonômicos.
Na prática, não basta oferecer apoio psicológico ou programas de qualidade de vida. A NR-1 exige uma postura preventiva. As empresas precisam mapear os fatores de risco existentes, implementar medidas de controle, revisar processos de trabalho e acompanhar continuamente a eficácia dessas ações. A prevenção passa a fazer parte da estratégia de gestão.
A obrigatoriedade dessas medidas entrou em vigor em 26 de maio de 2026. Durante o período inicial, o Ministério do Trabalho adotou caráter orientativo para facilitar a adaptação das empresas. Isso, porém, não elimina a responsabilidade dos empregadores. Superada essa fase, o descumprimento da norma poderá resultar em autuações pelos auditores fiscais do trabalho, com multas previstas na legislação trabalhista, além de aumentar a exposição das empresas a ações judiciais e indenizações quando ficar comprovado que o ambiente de trabalho contribuiu para o adoecimento do empregado.
Sob a ótica econômica, a discussão vai muito além do cumprimento da lei. O adoecimento mental gera impactos diretos sobre produtividade, absenteísmo, presenteísmo, rotatividade, acidentes de trabalho e custos com afastamentos. Equipes emocionalmente sobrecarregadas produzem menos, inovam menos e comprometem o desempenho das organizações.
Diversos estudos demonstram que ambientes psicologicamente seguros favorecem o engajamento, fortalecem a retenção de talentos e melhoram os resultados financeiros. Portanto, investir na saúde mental não representa apenas um custo adicional. Trata-se de uma decisão estratégica, capaz de gerar retorno por meio do aumento da produtividade, da redução de passivos trabalhistas e da valorização da imagem institucional.
Naturalmente, a implementação da NR-1 exigirá adaptações, especialmente para pequenas e médias empresas. Será necessário revisar processos, capacitar lideranças, fortalecer canais de escuta, aperfeiçoar políticas internas e desenvolver indicadores que permitam acompanhar os riscos psicossociais. Esse processo demanda planejamento, mas também oferece uma oportunidade para modernizar a gestão de pessoas.
Equipes emocionalmente sobrecarregadas produzem menos,
inovam menos e comprometem o desempenho das organizações”
É importante destacar que a norma não pretende transformar o empregador em responsável por todos os problemas emocionais dos trabalhadores. Seu propósito é garantir que fatores organizacionais capazes de provocar ou agravar o adoecimento sejam identificados e tratados preventivamente. O foco está nas condições de trabalho, e não na vida privada do empregado.
A experiência internacional demonstra que organizações que priorizam ambientes saudáveis tornam-se mais resilientes, competitivas e sustentáveis. O Brasil caminha na mesma direção ao incorporar a saúde mental às políticas de prevenção de riscos ocupacionais.
A NR-1 deve ser compreendida como um instrumento de evolução das relações de trabalho. Empresas que enxergarem essa mudança apenas como mais uma exigência burocrática correrão o risco de enfrentar multas, passivos judiciais e perda de competitividade. Já aquelas que incorporarem a saúde mental à estratégia de gestão estarão investindo no ativo mais importante de qualquer organização: as pessoas. Afinal, empresas saudáveis são construídas por profissionais saudáveis, e esse talvez seja o maior legado que a nova NR-1 pretende deixar para o mundo do trabalho.
* Economista. Trabalha com gestão de recursos humanos.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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