17 de julho, de 2026 | 06:30
Time: a saudação do esgotamento entre a pinça e o dosador
Abner Benevenuto Araújo Paixão * Carlos Eduardo Lima Salzmann **
Trabalhar em bares e restaurantes envolve uma dinâmica de tempo e desgaste que difere da maioria das atividades urbanas. Enquanto o público associa o setor a lazer e entretenimento, a rotina de quem sustenta a operação é marcada por jornadas prolongadas, pressão constante e baixa tolerância a erros. Na prática, a relação de trabalho começa antes mesmo da formalização contratual, quando o corpo passa a se adaptar a ritmos intensos e pouco previsíveis.O funcionamento das equipes depende de interdependência permanente. Profissionais que muitas vezes não se conhecem dividem espaços reduzidos, altas temperaturas, ruído contínuo e demandas simultâneas. O erro individual compromete o desempenho coletivo, o que desencoraja pausas, questionamentos e reclamações. Dores físicas, distúrbios gastrointestinais e privação de sono tornam-se recorrentes e passam a ser tratados como parte inerente da função.
A hierarquia é definida e concentrada. Gestores operam sob metas imediatas, enquanto o cliente ocupa posição central de poder. Entre essas instâncias, o trabalhador assume a responsabilidade de manter o serviço em funcionamento, mesmo à custa da própria saúde. A contenção de conflitos e desconfortos deixa de ser opção e passa a ser requisito operacional.
O adoecimento ocorre de forma progressiva. Lesões por esforço repetitivo, dores articulares, fadiga crônica, ansiedade e distúrbios do sono se acumulam ao longo do tempo, raramente acompanhados de afastamento ou redução de carga. A saúde mental é frequentemente postergada, sustentada pela lógica de que o desgaste é administrável e individual.
No bar, o desgaste assume características específicas. Além da exigência física, há a necessidade permanente de controle emocional. Bartenders operam sob exposição direta ao público, lidando com pedidos imprecisos, exigências fora do cardápio, comentários inconvenientes e tentativas recorrentes de ultrapassar limites profissionais. A execução técnica de coquetéis ocorre paralelamente à gestão constante de comportamento e expectativas.
Nesse contexto, a contenção emocional é frequentemente interpretada como competência. A capacidade de absorver pressão sem demonstrar reação é valorizada, e o sofrimento silencioso passa a ser entendido como sinal de profissionalismo. Esse modelo contribui para a normalização do desgaste psicológico como parte do desempenho esperado.
A bebida ocupa posição ambígua no ambiente de trabalho. É o produto central da operação, ferramenta técnica e fator de risco. A proximidade constante com o álcool favorece seu uso como regulador informal de estresse e fadiga, diluindo a fronteira entre função profissional e escape pessoal. Outras substâncias associadas a foco e resistência também aparecem como respostas pragmáticas às exigências do turno.
A permanência no setor raramente é planejada a longo prazo. O ingresso costuma ser provisório, associado a fases específicas da vida. Com o tempo, a adaptação física e emocional desloca os limites individuais, e o que era temporário se estabiliza. Projetos pessoais são adiados de forma contínua, sem ruptura clara.
O trabalhador assume a responsabilidade de manter
o serviço em funcionamento, mesmo à custa da própria saúde”
Essa dinâmica se aproxima do que o Pink Floyd descreve em Time. A música trata da percepção tardia de que os dias foram ocupados por tarefas repetitivas enquanto os anos passaram sem aviso. No setor de bares e restaurantes, o tempo opera de maneira semelhante. Ele não interrompe nem alerta. Apenas avança, acumulando desgaste até que seus efeitos se tornem evidentes.
A relação de trabalho em bares e restaurantes impõe custos significativos ao corpo e à saúde mental. O problema não está nas atividades em si, mas na romantização do excesso e na naturalização do desgaste como prova de comprometimento. Enquanto o tempo de quem sustenta a operação continuar sendo tratado como recurso descartável, o setor seguirá reproduzindo um modelo que consome anos de vida sem reconhecer esse custo.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
** Chef de cozinha e professor,com trajetória marcada pela fusão entre a gastronomia nipo-italiana e a culinária brasileira.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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