19 de julho, de 2026 | 10:00
''Padres Subversivos'': uma contribuição fundamental para a memória histórica do Vale do Aço e do Brasil
Ademir Venil *
A recém publicação do livro intitulado Padres Subversivos”, de autoria do professor e historiador Amir José de Melo, representa uma importante contribuição para a preservação da memória histórica do Vale do Aço e para a compreensão de um dos mais obscuros períodos da história brasileira. Resultado de anos de pesquisa acadêmica e investigação documental, a obra teve princípio na dissertação de mestrado, cursado pelo autor, concluído em 2006 e resgata a trajetória de oito sacerdotes da Diocese de Itabira-Cel. Fabriciano que foram processados pela Justiça Militar durante o regime instaurado em 1964.
O título, provocativo, da obra chama atenção pela ambivalência do termo subversivos”, podendo significar uma acusação e mesmo xingamento por parte de apoiadores daquele regime, mas que para críticos do status quo é considerado um termo inspirador de orgulho por designar bravura e resistência na luta por importantes mudanças sociais.
O período retratado é o pós golpe de 1964 que teve seu endurecimento em 1968 com o chamado AI-5 (Ato Institucional nº 5) que fechou o legislativo, cassou mandatos, acabou com a garantia do direito a defesa jurídica, instaurou a censura prévia e validou a tortura como método de coação e coerção. Tudo isso para impor uma implacável caça a qualquer pessoa ou grupo que discordasse do regime ou seus membros, taxando qualquer fala ou ato em defesa de justiça social como suficiente para acusação de participação em organização comunista ou até terrorista.
Mais que narrar acontecimentos, o livro de Amir revela
a complexa relação entre Igreja, sociedade e poder político em tempos de repressão”
O recorte espacial é o Vale do Aço, única região metropolitana mineira fora da Capital, exportadora há décadas não apenas de produtos, mas também de arte e conhecimento. Mas que apesar de tamanha relevância econômica, social e cultural para o Brasil e o mundo, ainda carece muito de trabalhos que contem sua história, sobretudo sobre os capítulos espinhosos. Padres Subversivos” faz o caro trabalho de expor feridas escondidas e dar voz a palavras silenciadas há muito tempo. Freud (1914), justamente em seu texto intitulado Recordar, repetir e elaborar” alerta sobre a ineficácia da política do avestruz” e que é necessário enfrentar nosso passado a fim de extrair algo valioso para o futuro.
Mais que narrar acontecimentos, o livro de Amir revela a complexa relação entre Igreja, sociedade e poder político em tempos de repressão, levando em consideração divergências dentro da instituição religiosa. Com rigor metodológico e sensibilidade histórica, o autor reconstrói um capítulo pouco conhecido da história regional, inserindo-o no contexto mais amplo das transformações sociais, religiosas e políticas vividas pelo Brasil entre as décadas de 1960 e 1970.
A principal virtude da obra está na capacidade do autor de articular a história local com os grandes acontecimentos nacionais. Ao examinar a atuação dos chamados "padres subversivos", o autor demonstra como as tensões provocadas pelo regime militar alcançaram os mais diferentes lugares do interior do país, afetando comunidades, lideranças religiosas e deixando cicatrizes e feridas abertas ainda sensíveis na história contemporânea brasileira.
O resultado é uma narrativa envolvente, acessível ao
público em geral, mas sem abrir mão do rigor acadêmico”
Outro aspecto digno de destaque é o compromisso do autor com a pesquisa documental. A utilização de processos judiciais, jornais da época, depoimentos e documentos históricos confere solidez às análises apresentadas. O resultado é uma narrativa envolvente, acessível ao público em geral, mas sem abrir mão do rigor acadêmico que caracteriza os mais fiéis trabalhos historiográficos.
Ao trazer à luz histórias de homens que foram perseguidos por defenderem princípios de justiça social e participação popular, Padres Subversivos” contribui para fortalecer a democracia e o respeito à diversidade de ideias.
Destaco aqui dois personagens ainda muito presentes no imaginário da população local e símbolos indestrutíveis da coragem de nosso povo. Padre De Man é o herói fundador da principal e mais antiga instituição de Ensino Superior do Vale do Aço, responsável pela formação de milhares de profissionais espalhados pelo Brasil e o mundo. Padre Abdala Jorge, ao qual tive a oportunidade de ver atuando com desprendimento de formalidades e focado na transmissão da doutrina cristã fraterna, foi o homem que começou por dar condições de valorização e dignidade às lavadeiras, pavimentou a conscientização e organização dos trabalhadores e ousou enfrentar com altivez os mais poderosos, sem medo da morte. Estes dois religiosos mais conhecidos, juntamente aos demais citados no livro e tantos outros viveram suas vidas com a coragem de quem soube colocar a igreja a serviço de Cristo na pessoa dos oprimidos e não o inverso.
Vale destacar também a importante participação de outro personagem trazida no livro: o saudoso bispo Dom Lelis Lara, à época ainda padre Lara, mas já professor de Direito Canônico que como especialista assessorou um dos advogados atuantes no caso.
A obra nos lembra que a preservação da memória é uma condição indispensável para que as novas gerações conheçam o passado, afim de compreender os desafios do presente e refletir sobre os rumos do futuro a ser construído.
Amir reafirma, com este livro, sua grande relevância profissional, oferecendo contribuições robustas à produção historiográfica inédita sobre a região. Seu trabalho demonstra que a história do Vale do Aço possui episódios de grande significado para a compreensão da trajetória nacional, merecendo ser estudados, debatidos e divulgados.
Padres Subversivos é, portanto, uma obra necessária. Leitura indispensável para pesquisadores, estudantes, educadores e todos aqueles que acreditam na importância da memória histórica como instrumento de reflexão, cidadania e construção de uma sociedade mais consciente daquilo que deseja ser.
Como leitor, amante do tema enfocado recomendo a obra que poderá ser adquirida na secretaria da Paroquia São Sebastião de Cel. Fabriciano, com recursos da venda destinados às obras de recuperação da Co catedral. Aliás, esta atitude altruísta do autor motivou ainda mais a redação deste artigo.
* Psicólogo, psicanalista, Iluminador e especialista em Gestão de Políticas Públicas e Sociais. Atua na interseção entre saúde mental, artes e políticas públicas. [email protected]/
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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Gildázio Garcia Vitor
19 de julho, 2026 | 12:21Professor Amir, velho Companheiro de lutas e sonhos, a maioria utópicos, na Política e na Educação, deu um show-provavelmente o maior de sua vida - com este livro.
E você, Ademir, deu outro com este artigo. Parabéns!”