20 de julho, de 2026 | 18:00
Não estava escrito nas estrelas...
Nena de Castro *
Bom dia! Amanheceu com gosto de saudade. Acordei com sede de Charles Aznavour cantando La Bohéme. O incrível chansonier francês me conta os dias inigualáveis da juventude em Paris. Um quarto miserável, onde ele e a amada passavam os dias e noites, ele pintando noite adentro, tentando passar para a tela a beleza do corpo nu da moça.Não tinham dinheiro, a vida era difícil, mas tudo era lindo no bairro Montmartre onde os lisases subiam pelas janelas espraiando beleza. Às vezes, um bistrô aceitava uma tela pela comida e eles se sentiam felizes, recitando versos ao redor do aquecedor, esquecendo o inverno... Pouco me importa se praticamente ninguém sabe quem foi Aznavour, Edith Piaf e suas canções doridamente maravilhosas! Eu sei, eu as ouvia na adolescência e continuo ouvindo. Estou ciente do mau gosto que impera nas canções hodiernas, eu curto música francesa e italiana, adorava Pepino de Capri cantando Roberta” e Champanhe. E Domenico Modugno cantando Volare”, mais conhecida como Nel Blu Dipinto Di Blu”. E amo as canções brasileiras de Elizete Cardoso, Dalva de Oliveira, Carmélia Alves, Linda Batista. Ângela Maria, Vicente Celestino, Nélson Gonçalves, Cauby Peixoto, Francisco Alves... Afinal, tínhamos um aparelho de rádio e mesmo morando no interiorzão das Geraes, acompanhávamos tudo que acontecia, ouvíamos o Repórter Esso à noite e durante o dia as canções lindas nos enlevavam! Sem contar música caipira raiz que cantávamos sem querer parar de tão lindas que eram! Eitaaa! Mas falando em saudade, fui ler poemas de Cecília Meireles, depois me lembrei de um encontro dela com Fernando Pessoa que acabou não acontecendo, vejam só: era 1934, e a poeta foi convidada a proferir conferências em Lisboa e Coimbra. Acompanhada por seu primeiro marido, o pintor português Fernando Correia Dias - velho amigo de Pessoa - Cecília telefona para o bardo português e marcam um encontro ao meio-dia, no café Brasileira do Chiado”. Esperam duas horas em vão, voltam pro hotel e encontram um exemplar autografado do livro Mensagem” e junto um bilhete justificando a ausência: é que, segundo o Bardo, sentira vibrações mediúnicas, decidira fazer seu horóscopo daquele dia, nele vendo que os dois não eram para se encontrar”.
Fernando Pessoa era místico, acreditava em sinais e no Fado (destino) e em carta para AL Crowley, em 1930, afirma que janeiro e fevereiro são os meses impeditivos” e que março é um mês propício para encontrar consigo, estando a direção solar de base (Sol, sextil} configuração formada por dois astros} Netuno) em notável harmonia com as circunstâncias”.
Enviou também cálculos astrológicos sugerindo setembro para essa ida de Crowley, como de fato ocorreu naquele ano. Ah, bem que eu queria que Fernando Pessoa e a extraordinária Cecília Meireles tivessem se encontrado! Estumados pela Musa, sabe-se lá o que teriam escrito? Certamente, coisas belíssimas.
Ou não! Vai saber o que se passa na cabeça de um poeta fingidor” e de uma poetaça” pura sensibilidade! E nada mais digo a não ser que essas informações eu tirei do livro Fernando Pessoa uma quase autobiografia” de José Paulo Cavalcanti Filho, Editora Record, 4ª edição, 2011, no qual o autor afirma e demonstra por documentos e obras que o bardo português teve 127 heterônimos! Eitaaaaaaaaaaaa! Tenham todos uma ótima semana! E a saudade continua...
* Escritora e Encantadora de Histórias
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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