23 de julho, de 2026 | 07:00

Assim falava Donald Trump

Paulo da Rocha Dias *

“Tira-lhes algo com taxas e sobretaxas”, disse o novo Zaratustra a Jamieson Greer. “Que mendiguem! Aplique neles o que reza a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.” Respondeu-lhe Jamieson Greer: “O fracasso do Brasil em combater a importação de produtos fabricados com trabalho forçado é inaceitável. Os trabalhadores americanos são obrigados a competir globalmente em condições desiguais. Não mais toleraremos essa disparidade. Isso prejudica e restringe o comércio dos Estados Unidos.”

Por isso, o Gabinete do Representante Comercial dos EUA (USTR) impõe uma taxa de 25% sobre nossas exportações, com um possível acréscimo de 12,5%. Esse acréscimo vem sob a alegação de que o Brasil falha efetivamente na proibição e fiscalização de bens produzidos aqui e em outros países com trabalho forçado. Além dessa retórica, reclamam também de nossas decisões judiciais, do Pix e da proteção da propriedade intelectual, do comércio digital e do fluxo internacional de dados, do etanol e da corrupção, do desmatamento e da não aplicação de medidas anticorrupção.

Acusam-nos também de “dumping”, ou seja, excesso de capacidade estrutural e de produção a ponto de superar tanto a demanda interna quanto a global. Essa prática estaria comprometendo a competitividade de empresas dos EUA, aumentando riscos, reduzindo os lucros sobre seus investimentos e restringindo a capacidade de empresas dos EUA de realizar atividades comerciais.

Membros do Congresso dos Estados Unidos afirmam, porém, que o tarifaço tem motivações políticas. A posição das autoridades brasileiras é que as acusações não têm fundamento algum e que a Organização Mundial do Comércio é o fórum adequado para a solução de controvérsias.

O fato é que quem provocou tudo isso é inimigo do Brasil e comete o crime de lesa-pátria. Além das motivações políticas, o que está por trás das decisões do USTR são quatro conceitos fundamentais do sistema liberal de circulação de mercadorias: protecionismo e unilateralismo, livre concorrência e multilateralismo.

Embora o partido de Donald Trump seja o mais digno representante do liberalismo econômico no mundo, ele e seu assecla Jamieson Greer ignoram dois pilares fundamentais da doutrina liberal: a livre concorrência e o multilateralismo. Optam pelo que há de pior na discussão que se dá no interior do sistema liberal: o protecionismo estatal e o unilateralismo.

Quando Donald Trump escolheu Jamieson Greer como chefe do Gabinete Comercial dos Estados Unidos, incumbiu-o de tarefas hercúleas: colocar o país novamente em primeiro lugar no comércio internacional, ampliar o acesso ao mercado internacional para produtos made in USA, provocar em casa um “ressurgimento industrial”, trazer os empregos de volta e aumentar os salários dos trabalhadores americanos.

“Quem provocou tudo isso comete o crime de lesa-pátria”


Essas tarefas indicam a situação atual do reino de Donald Trump: não lidera mais o comércio internacional. Há muito perdeu essa liderança para a China. Produtos americanos têm ainda amplo acesso ao mercado internacional, mas, no jogo das mercadorias, o made in China está ganhando por três a um do made in USA. O país está desindustrializado. Grande parte da indústria e do capital americano fugiu para a China, inclusive grana de Donald Trump, e deixou apenas um cinturão de ferrugem (rust belt) para trás. O desemprego e a pobreza assolam o país e, consequentemente, os salários não são mais suficientes para realizar o sonho americano.

Greer tomou posse do gabinete com determinação. Para que os ianques assumam novamente a liderança, combate como um Odisseu o que considera práticas desleais de comércio exterior. Essa questão do trabalho forçado, por exemplo, remete a um antigo mito que o Ocidente criou contra a China. Então, o que Greer quer dizer é que continuamos comprando produtos fabricados por escravos chineses. Puro mito. Pura mentira. Ofensa contra o livre-comércio e a livre concorrência.

“Eles querem lucrar com o caos na economia mundial”


Internamente, Greer tem convocado os ricaços americanos para a reconstrução, inovação e revitalização da base industrial do país e para o incremento da manufatura de produtos industrializados. Ao mesmo tempo, incentiva os donos de empresas a trazer as linhas de produção de volta para solo americano e, consequentemente, gerar mais empregos domésticos.

Trump, Greer e o filho de fugitivo cubano Marco Rubio se esquecem de que só tornarão os Estados Unidos grandes de novo se buscarem os ideais de justiça social, distribuição de renda e maior igualdade e segurança econômica para todas as nações. Isso nunca acontecerá se continuarem sequestrando fundos da Venezuela, da Rússia e do Irã. Trump e sua trupe não querem nem livre comércio, nem concorrência equitativa. Eles querem lucrar com o caos na economia mundial.

* Jornalista, escritor e professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso. ([email protected])

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