02 de julho, de 2026 | 09:20

Cazé TV expõe uma lacuna nas regras da publicidade de bets no país

Informações da Agência Brasil
Bruno Peres/Agência Brasil
Especialistas analisam formato que une informação e publicidadeEspecialistas analisam formato que une informação e publicidade

A investigação aberta pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para apurar irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante transmissões da CazéTV, nos jogos da Copa do Mundo 2026, reacendeu o debate sobre os limites entre conteúdo editorial, entretenimento e publicidade em plataformas digitais.

A CazéTV tornou-se uma das principais plataformas de transmissão da Copa e passou a disputar espaço com emissoras tradicionais. O canal é a única plataforma que vai transmitir os 104 jogos da competição.

Na última quinta-feira (25), a empresa foi citada em uma investigação da Senacon, órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública, para averiguar ilegalidades na publicidade de apostas esportivas de quota fixa, as chamadas bets. A investigação reacendeu o debate entre especialistas sobre os limites entre informação, entretenimento e responsabilidade social.

Durante as transmissões e pré-jogos, narradores do canal recomendaram odds, indicadores das probabilidades e do retorno potencial das apostas, indicando que determinados resultados eram prováveis de ocorrer. E dicas de como e em quem apostar também eram passadas na tela.

Um levantamento do portal ICL Notícias identificou 74 sugestões de apostas em 48 partidas transmitidas pela CazéTV, e 61% delas não se confirmaram. As ofertas eram feitas pelas três bets que figuram na lista de anunciantes da CazéTV durante a Copa: Bet365, Betnacional e KTO.

Publicidade de apostas

Empresas de aposta esportiva se tornaram a segunda maior categoria anunciante durante a Copa, atrás apenas do setor de alimentos e bebidas. Nas transmissões oficiais, compartilhadas entre Rede Globo, CazéTV e SBT, todas contam com empresas de bet no quadro de anunciantes.

Para o professor da Universidade Federal de Alagoas e coordenador do Observatório das Transmissões de Futebol, Anderson Santos, a diferença da CazéTV está no estilo de transmissão. Esse formato em que informação, entretenimento e merchandising circulam dentro da mesma chamada combina bem para marcas de consumo comum, mas representa um limite mais sensível quando envolve apostas esportivas.

“Essa tentativa de interagir como algo natural com a mercadoria eles conseguem fazer bem, mas caíram no problema sério porque [aposta] esportiva é um problema de saúde coletiva, né? Saúde financeira, corpo físico e mental. E aí você transformar isso como algo do dia a dia é extremamente perigoso”, disse Santos.

Janaine Aires, professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e líder do Grupo de Pesquisa em Políticas e Economia da Informação e da Comunicação, aponta que, com regras mais rígidas de publicidade nos veículos tradicionais, a internet acaba se tornando um terreno fértil, uma zona cinzenta a ser explorada.

Segundo ela, na televisão aberta, a publicidade é um bloco separado do conteúdo editorial, já o modelo de transmissão da CazéTV integrou as duas coisas. O formato expõe uma lacuna dos órgãos de fiscalização, que ainda estão entendendo como lidar com formatos digitais nativos e abre espaço para uma investida mais predatória das marcas.

“Diante da possibilidade de uma brecha, há uma migração para uma nova plataforma que não responde às regras impostas para o contexto tradicional. E aí os investidores, os financiadores, criam suas próprias regras até que, de alguma forma, existe algum tipo de freio para que as coisas não sigam fora do rumo”, explicou.

Um estudo da Agência Macfor registrou mais de 18 milhões de buscas pelo termo "bet" antes da Copa e apontou que seis em cada dez brasileiros pretendiam apostar. Nos últimos cinco anos, o interesse por bets subiu 496% no Brasil.

Dados do Ministério da Fazenda apontam que o setor teve lucro bruto de R$ 37 bilhões em 2025. Em comparação com outros países, o interesse caiu 19,6% no Reino Unido, 53% em Portugal e 12,6% na Espanha. Na Argentina, avançou 268,8%, apurou a Agência Macfor.

CazéTV

A CazéTV foi fundada em 2022 por meio de uma parceria entre a empresa LiveMode e o streamer Casimiro Miguel, que ganhou notoriedade gravando lives durante a pandemia de covid-19.

A parceria ganhou força com a aprovação da Lei do Mandante em 2021 (Lei nº 14.205/2021), que deu aos clubes de futebol liberdade para negociar as transmissões dos jogos e enfraqueceu o monopólio da Rede Globo. Na Copa do Mundo de 2022, o canal fechou um pacote de transmissão de 22 jogos em parceria com a Federação Internacional de Futebol Associado (Fifa).

Anderson Santos classifica esse estilo como uma cobertura esportiva voltada ao entretenimento, onde a preocupação é gerar engajamento dentro de um cenário em que a concorrência pela atenção do espectador é alta, e não necessariamente como jornalismo esportivo.

“Você tem uma liberdade de conteúdo maior, e isso de vez em quando gera alguns problemas a partir dos comentários. Então, a gente tá vendo em casa, no celular, enfim, como se tivesse encontrando os amigos numa mesa de bar para comentar do jogo”.

Santos defende que é um erro pensar nessa reorganização como o fim da televisão tradicional, que ainda detém maior expressão no território nacional. Ele defende que o consumo vai continuar estável, com pequenas adequações à necessidade do público.

“Por conta mesmo do que virou o nosso ritmo de vida, especialmente depois da pandemia, que a gente precisa estar em diferentes telas, estar trabalhando no lugar e fazendo outra coisa, enfim, trazendo essa flexibilidade do consumo”.

Janaine Aires enxerga nesse modelo, onde as linhas entre informação e entretenimento são mais ambíguas, uma saída segura para o estilo adotado pela CazéTV. E também uma tendência de precarização do mercado profissional.

“O profissional do entretenimento é mais barato que o profissional do jornalismo. Fazer jornalismo é mais caro. Então dizer que não faz também é uma forma de precarizar, porque se eles dissessem ‘ah, não, a gente faz jornalismo’, por exemplo, eles teriam que obedecer às regras sindicais, né?”, pontuou.

Regulamentação

Atualmente, dois projetos de lei em tramitação propõem proibir a publicidade e o patrocínio de empresas de apostas esportivas e jogos online em diferentes meios de comunicação e eventos no país. As propostas são o PL 2.478/2026, na Câmara dos Deputados, e o PL 2.470/2026, no Senado, de autoria da Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental.

Janaine Aires faz um paralelo com o que ocorreu com a indústria do tabaco, cuja publicidade é proibida. Mas alerta como o patrocínio das empresas de bet em vários setores do país pode dificultar essas ações.

“Se eu tenho uma empresa jornalística que é patrocinada por bet, e isso já é uma realidade no país, então essa discussão não vai ser tratada no jornalismo, por exemplo. Quando a gente traz essa informação, pesquisas já apontam que o próximo congresso vai somar mais um B aos Bs que a gente já tem, que é o boi, a bala, a Bíblia e agora a Bet. Então o cenário da democracia brasileira de alguma maneira está em risco”, finalizou.
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário